As inspirações de Matilda Azevedo

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Matilda é a editora de moda da Trailer uma das revistas mais avant garde. Cheia de inspirações e pesquisas interessantes. Conversamos sobre inspirações, fotografia e análises estruturais do mercado. 

OK: Quão difícil é para você encontrar e para transferir toda essa energia das suas pesquisas para as páginas da Trailer?

M: Sempre adorei pesquisar e sempre pesquisei, dentro e fora do trabalho. Adoro me perder em livros e abas de internet, em conversas e imagens. É um processo delicioso onde uma coisa vai puxando a outra. Aprendizado e inspiração constantes, altamente viciante. A pesquisa da Trailer é muito orgânica. Ela parte de um estudo de comportamento, de censo comum, e a partir disso vou definindo os caminhos até chegar nas passarelas, no produto final. Mas o legal dessa pesquisa é que para chegar no produto final, naquilo que as pessoas vão desejar ter, passo por muitas ideias que acabam se misturando de forma surpreendente. Arte, música, culturas. Existe uma grande nuvem de ideias que nos une. A Trailer é uma revista trimestral, e graças a isso consigo ficar até dois meses só na pesquisa, pra depois definir os temas e conversar com os colaboradores. E é sempre incrível, damos muita liberdade para os artistas criarem o que acreditam, e tudo conversa lindamente no final, sem esforços.

OK: Qual foi o ponto de partida para a Trailer? Certamente não me parece um projeto saudosista underground e ao mesmo tempo não parece com as revistas convencionais.

M: A Trailer é a primeira revista nacional com o objetivo que tem. Surgiu de uma necessidade, e a ideia foi muito boa. O mais interessante foi ela ter surgido dos donos da editora, e não de pessoas da minha geração. É aí que a gente percebe a história do inconsciente coletivo. Eles queriam, por estarem totalmente envolvidos no processo comercial da moda, melhorar a forma como seus clientes consumiam. A inovação vem na forma que definimos como essa ideia seria executada, a mistura da ideia deles com a nossa forma de realizar. Ela é um guia conceitual de pesquisas de tendências antecipadas, com o objetivo de acostumar o olhar dos profissionais a novas propostas e com o que vai estar nas araras daqui um ano, um ano e meio. O nosso leitor principal é o dono de loja, principalmente lojas multimarcas. Queremos mostrar para eles no que seria interessante investir, ao invés de querer vender o que a atriz da novela está usando. Inspirar, e não impor. O mais legal da Trailer é que ela acabou conquistando outros tipos de leitores pela forma como entrega tudo isso. Pessoas que amam arte, imagem, e que estavam cansadas da forma que a moda era apresentada editorialmente.

OK: Vivemos em uma época onde as lições das grandes "revistas de moda", parecem estarem sumindo. Não é tanto o que você veste, mas como você usa, estou certo?

M: Sem dúvida. A moda não é apenas uma peça de roupa, nunca foi. A moda é a sua personalidade, o que você acredita, o seu humor, o que você anda pensando, ouvindo. Na minha opinião, o que incomoda na maioria das revistas nacionais é a massificação dos estilos, igualar todo mundo. É insistir na ideia de que é legal se inspirar em uma celebridade para montar a sua “cara”, ou seja, a cara dela. Mas uma coisa que me intriga é que muita gente no Brasil busca isso, ou seja, a culpa não é só da revista. Se ela existe, é porque tem gente que compra essa ideia. Precisamos passar para os leitores o prazer que é se aprofundar culturalmente, mostrar que é possível buscar referências em tudo, e assim encontrar um estilo que seja único. Incentivar as pessoas a trilharem seus próprios roteiros de referências. Com isso vão consumir melhor, vão saber escolher o que transparece o que são, se sentirão confortáveis e todos sairão ganhando com isso. Acredito que estamos começando esse novo caminho, mas ele é longo, tem muita coisa envolvida.

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OK: Quem foram os seus mentores e influências pessoais importantes?

M: Nasci em uma casa muito rica culturalmente. Isso com certeza me ajudou a ser curiosa. Minha mãe era uma artista muito plural, minha casa vivia cheia de pessoas maravilhosas, e meu pai é a parte intelectual e musical desse pacote. Profissionalmente tive contato com três pessoas que, sem dúvida, me ensinaram e me direcionaram muito a acreditar no que sinto. Carla Raimondi, Paulo Martinez e Regina Guerreiro. Atualmente trabalho com Doris Bicudo, que é a diretora de redação da Trailer. Aprendo muito com ela também. Na vida pessoal sempre me envolvi com pessoas criativas. Meus amigos são criadores, pessoas inquietas. Minhas influências se renovam diariamente nas minhas pesquisas sem fim, sempre descubro alguém que tira meu ar, e isso é bom demais. Amo o trabalho do Yohji Yamamoto e da Rei Kawakubo. Do Dries Van Noten e Margiela. Adoro Camilla Nickerson. Carine Roitfeld é maravilhosa, Grace Coddington também. Todos eles fazem o que acreditam, e seu sucesso veio da diferença. Sou louca por Serge Gainsbourg, Peter Beard, Kazuo Ohno, Eduardo Galeano e Julio Cortázar, Jean Cocteau, Felipe Ehrenberg, Tom Waits, Pina Baush, Matthew Barney, Cildo Meireles, Azuma Makoto, Sergei Parajanov, Lidewij Edelkoort, o Maracatu, a Bauhaus, o japonismo, os belgas, a Nouvelle Vague ... a lista é infinita.

OK: Então, quem são os seus três fotógrafos de moda favoritos contemporâneos?

M: O trabalho do Pierpaolo Ferrari tem um humor maravilhoso, provocador. Vincent Van de Wijngaard tem um olhar poético lindo, me inspira bastante. Adoro a simplicidade do Ben Dunbar-Brunton e as imagens mágicas da Lea Colombo. Gosto muito dessa ideia de fotógrafos que não trabalham apenas com moda, e quando são inseridos nesse mundo acabam trazendo outras influências. Adoraria, por exemplo, ter um editorial de moda fotografado pelo Felipe Morozini na Trailer. Ou um do Marcio Simch. Gosto muito da Nicole Heiniger, que já trabalha com a gente desde a primeira edição. Gosto da fantasia, de ser transportada para outro lugar.

OK: Você acha que você está usando novos nomes suficientes na Trailer? Já que nosso mercado nos últimos dez anos evoluiu de alguma forma.

M: Suficiente é uma palavra que não gosto de usar. Nunca é e nunca será. A Trailer está no terceiro número, ela é muito recente. E por ser muito orgânica vamos percebendo as necessidades enquanto fazemos. Queremos ter o maior número possível de colaboradores em cada edição. E queremos quebrar as barreiras da exclusividade também. Se o objetivo da Trailer é inspirar tantas pessoas, precisamos ter o maior número de olhares diversos que ela comportar. Nesse caso mais é sempre mais.

OK: Não deveriam todas as revistas de gastar mais tempo e energia com novas idéias e novos talentos para executá-las?

M: Acredito que esse seja o caminho ideal, sair da zona de conforto e testar, inovar. Claro que isso é difícil, ainda mais quando você tem títulos que existem há tantos anos e já têm suas fórmulas enraizadas. Prefiro pensar em novas revistas, acho isso mais possível do que elas se renovarem e se transformarem em outras. Até as poucas revistas mais conceituais que existiam estão se rendendo a esse formato comercial, vivemos uma época em que é necessária a criação de novos meios de uma revista se sustentar, e assim poder ser mais livre. Profissionais talentosos para isso temos de sobra.

OK: O "mainstream" versus o "underground"? Esse debate simplesmente não existe mais, não é?

M: Uma coisa é pensar em mainstream como algo atual e o underground como algo antigo. Outra coisa é pensar no mainstream como o que é imposto e o underground como o que é diferente, fora do circuito. O debate neste segundo caso é muito importante. O mainstream tomou conta do pensamento geral, é o que acaba falando mais alto no final das contas. O que importa é vender e o que importa é consumir. Tudo fica nessa superfície e não leva ninguém a lugar nenhum. É preciso encontrar uma forma de unir os dois, na medida do possível. As pessoas deveriam desejar e aceitar as diferenças, se unir para ter novas ideias para transformar conceitos batidos, inovar na maneira de fazer as coisas. Falta poesia no mainstream.

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