Confissão por Luigi Dias

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Desde a mais tenra idade eu aprendi que desenhar, nada mais era do que observar. Eu observo o mundo, o mundo me encara de volta. E acena que ‘sim’. Eu cresci acreditando que o enigma da existência estava escondido entre o céu e a terra, na distância entre os olhos, no formato das ondas e das folhas. Tudo faz um enorme sentido, uma vez desvendado o autostereograma da natureza.

Eu penso muito sobre essas imagens. É como se eu nunca tivesse estado lá. Eu lembro das histórias, mas não da minha presença. Elas vieram antes e depois. Sempre estiveram. O meu trabalho é pescar momentos de dentro desse fluxo eterno de acontecimentos, e trazê-los à tona; eternizá-los à minha maneira. Confissões muito sinceras do que é a vida, a minha arte é uma mensagem na garrafa perdida no oceano, gritando para ser descoberta, esperando ser compreendida e compartilhada.

Essa clareza assustadora tem inspiração no nada. Quando fixo meus olhos no horizonte, indefeso, mas sempre atento, sinto cada grão gelado de areia mover-se por debaixo dos meus pés. As pequenas ondas, depois as maiores. Reparo no vai-e-vem dos galhos das árvores antes da tempestade, e a correnteza que leva um pouco de nós de volta ao mar, todos os dias. O que eu devo à você?, pergunto. A resposta é uma lufada de vento, um pingo de chuva no rosto. Seu silêncio é tenebroso. Ela desdenha das minhas visões, que de nada valem. Está interessada no intérprete. Cobiçando minha carcaça apodrecida, minhas suculentas ideias decompostas -se é que um dia foram sólidas-, adubo para as plantas e insetos, e assim por diante. 

Nos entregamos à vida encantados com a perspectiva de ser eterna e plena, mas vivemos eternamente incomodados com esse ressentimento preso no fundo da garganta, que nos lembra, de tempos em tempos, da sentença final deferida no momento do primeiro choro: culpado. Que moral há nisso? Nenhuma. Pois moral alguma é mais açucarada que as páginas que sustentam minhas tintas. Não me importo, até o dia que chegue de fato a morte, o meu verdadeiro e único legado

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texto e fotos Luigi Dias

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