Moda é moda, arte é arte

ianes

 

Por Giuliana Mesquita

Maurício Ianês tem duas legiões de fãs distintas. De um lado, aqueles que o conhecem e o admiram pela sua arte performática, a transgressão das regras, a subversão do que é considerado regra. Do outro, seu trabalho como stylist e diretor criativo também faz brilhar os olhos de quem é apaixonado por moda. Seus dois amores sempre caminharam lado a lado sem se tocar. Duas linhas paralelas que, com o perdão da regra matemática, se contaminam vez ou outra. A maioria dos artistas que trabalham com moda mesclam sua arte na moda com estampas, proporções e volumes. Maurício escolheu o caminho oposto. Decidiu ser stylist ao conhecer Kate England, braço direito de Alexander McQueen, e se apaixonou pela profissão que ainda nem existia no Brasil. “Para mim, moda é moda e arte é arte. As duas coisas podem se misturar, às vezes, mas não concordo com quem usa nenhuma das duas como muleta para se tornar mais intelectual”, dispara.

Começando do começo, Maurício nasceu em Santos e em 1992 se mudou para São Paulo. Conheceu, namorou e até hoje trabalha ao lado de Alexandre Herchcovitch em sua marca própria e em suas parcerias. Estudava tecidos, técnicas e formatos para levar um pouco do que aprendia na FAAP, onde estudava artes plásticas, para o trabalho do estilista. O uso de látex e a preciosidade no uso de modelagem plana para criar peças arquitetônicas, mas mesmo assim usáveis, é mérito seu. No fim de 1998 se mudou para Londres, onde trabalhou com Alexander McQueen desenvolvendo peças especiais para os desfiles, como saias de ladrilho e acessórios. No seu currículo encontramos também uma participação em um dos desfiles mais icônicos de toda a moda, aquele em que Sharlom Harlow é atacada por robôs de tintas. Ali, Maurício colocou seu nome na história.

Não só na moda como também na arte, Maurício Ianês é conhecido por propôr quebra de padrões e percepções em suas performances. Tanto que foi escolhido pessoalmente por Marina Abramovic para um retiro de sete dias e uma exposição de dois meses, quando a rainha da arte performática visitou o Brasil. Em sua sala, as regras do mundo exterior não valiam. “A gente assina um termo que eu fala; dentro desta sala as leis do mundo não se aplicam', então a pessoa podia fazer o que quisesse. E todo mundo queria destruir alguma coisa”, lembra. Com Marina, diz que aprendeu a não sentir medo do que pode acontecer dentro de uma sala de performance, mesmo que isso ameace sua vida.

Depois de se fortalecer como artista, Maurício Ianês trabalhou como diretor criativo de marcas como TNG, Zapping e da Authentic Vision Brasil, do mesmo grupo da Cavalera. Muito antes de existirem as grandes colaborações de fast-fashions com marcas de luxo, Ianês idealizou um projeto para a Zapping em que todas as coleções contariam com ajuda externa, como o grupo Cansei de Ser Sexy e uma dupla de designers dinamarquesa. Infelizmente, não pode ver sua ideia concretizada, já que o grupo Zoomp faliu antes. “Gostaria muito de implementar esse projeto em outra marca. Seria incrível”.

Como um crítico de cultura em geral, Maurício enxerga na moda um problema de querer construir uma aura de exclusividade, exatamente o que a maioria dos artistas tenta quebrar. “A moda é a cultura mais presente no dia a dia das pessoas, refletindo o corpo, sociedade, economia e questões muito presentes e muito fortes, não dá pra querer pegar a pior característica da arte [a aura de sofisticação] e tentar copiar”, finaliza.

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