Quem é Túlio Pinto?!

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Nasci em Brasília no ano de 1974 mas, em função de meu pai ser militar, morei a maior parte de minha infância e adolescência no Rio de Janeiro. Em 1993, fixei residência em Porto Alegre. Cursei o ensino médio no Colégio Militar do Rio de Janeiro. Já em Porto Alegre, estudei no curso de comunicação da UFRGS sem concluí-lo. Em 2005 / 2, ingressei no Instituto de Artes da UFRGS onde me graduei em artes visuais com habilitação em escultura em 2009.

OK: O que te motivou a ser artista?

T: Em uma das aulas do curso Processo Criativo que fiz com Charles Watson em 2005, enquanto era apresentado para a turma um vídeo onde o artista Richard Long relocava algumas pedras em um deserto, lembrei-me de uma brincadeira que fazia quando criança e que estava muito bem guardada, até então, em alguma das tantas gavetas da memória. Pois bem; quando pequeno, em função das viagens de férias para visitar parentes, escolhia aleatoriamente uma pedra que iria me acompanhar até meu destino. Lá, ela seria abandonada para viver sua “nova vida”. Isso pode significar nada ou pode ser a síntese de um universo. Eu, desde muito cedo, me vejo preferindo a poesia que existe entre e nas coisas do mundo.

OK: Qual foi sua formação artística?

T: Em 2004, estudei pintura no Atelier Livre de Porto Alegre com Daisy Viola e Marilice Corona. Foi quando decidi prestar o vestibular para Artes Visuais na UFRGS. Entrei para a turma do segundo semestre de 2005 do Instituto de Artes, pensando em pintura e aproveitei o primeiro semestre para fazer alguns cursos na EAV do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Foi então que conheci o Charles Watson e Luiz Ernesto Moraes. Com o Luiz fiz pintura durante esses seis primeiros meses de 2005 e com o Charles fiz o Processo Criativo. Depois, em 2007, reencontrei o Charles no Procedência e Propriedade, tendo também como orientadores Cadu e Fred Carvalho. O Charles é bem importante para minha formação. Certamente, ele é um “ponto de inflexão” em minha experiência como artista.

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OK: Você estudou pintura com Luis Ernesto de Moraes e Charles Watson como foram essas experiências?

T: Luis é uma pessoa muito espacial. Além disso, é um excelente artista e educador. Tenho por ele um grande carinho! Foi uma experiência e tanto o período de quase 6 meses que tive de contato com ele no segundo semestre de 2005 como aluno. Com o Charles é o que já coloquei. Meus encontros com ele são pontos de inflexão na minha caminhada enquanto artista e ser humano. Sou profundamente grato a ele.

OK: Como você descreve seu trabalho?

T: Interessam-me os conceitos de impermanência e transformação. Todo projeto parte da ideia de promover o encontro entre materiais distintos – cada um carregando em si suas características de ser e de estar – gerando contrastes que acentuam suas particularidades. Tento dar visibilidade aos princípios físicos que regem o mundo em que vivemos e revelar o extraordinário que pode existir nas coisas ordinárias. Os resultados das proposições que estabeleço trazem à tona um caráter performático dos materiais empregados – protagonistas de eventos escultórico/instalativos geradores de tensão, equilíbrio, compressão, deslocamento e suas possíveis derivações no espaço e tempo. Procuro criar, através de minhas proposições, nos diálogos que estabelecem por meio das leis que determinam sua existência – leis do mundo – um lugar de experiência e reflexão.

OK: Que fatores influenciam na elaboração de sua obra?

T: Acho que a escolha dos materiais que vão estabelecer o “diálogo” e como serão conformados no espaço são dois fatores bem importantes. No mais, o processo de elaboração e especulação é extremamente mental e também derivativo de trabalhos já executados. Entendo o mundo como um grande atelier.

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OK: Você consegue viver da arte?

T: Do ponto de vista filosófico espiritual posso afirmar que vivo de arte. É ela que alimenta meu espírito. Uma extensão de mim. A forma como me comunico com o mundo. Agora, no aspecto material, do dia a dia, de pagar conta e tudo mais, posso dizer que de uns tempos pra cá essa possibilidade tem se mostrado menos miragem.

OK: Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?

T: Acredito que sejam boas ferramentas para divulgação de artistas e seus trabalhos. Acho que Bienais podem contribuir, e muito, no que diz respeito à educação. Na aproximação do público com a arte contemporânea.

OK: Como está a arte contemporânea no Brasil?

T: No meu entendimento vai muito bem, no que tange a produção e reflexão. Temos excelentes artistas, curadores e críticos no Brasil. Refiro-me tanto àqueles já estabelecidos quanto aos que ainda estão em começo de carreira. O solo aqui é muito fértil. Acho que o grande desafio está em como gerar uma maior aproximação do grande público com a arte contemporânea e seus códigos.

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OK: Você consegue financiamento para seus projetos artísticos?

T: Então, no começo era mais uma coisa de guardar projetos na gaveta porque estavam fora do alcance dos meus braços. Mesmo assim dava um jeito de realizar aqueles que se mostravam possíveis, sempre contando com o suporte de meus pais. Devo tudo a eles! Sempre acreditaram em mim. Daí começaram a ocorrer algumas vendas e trabalhos passaram a surgir modestamente dessa retroalimentação. De uns tempos pra cá as coisas estão se desdobrando nesse sentido. Dentre alguns projetos posso citar o financiamento para o projeto CEP – corpo, espaço e percurso por meio do edital Rede Nacional da Funarte em sua 9° edição e o projeto Práticas de Reconhecimento e Algumas Aproximações desenvolvido na Praça Victor Civita a convite do Atelier A Pipa.
Não posso deixar de citar a Galeria Baró que me representa. Nossa parceria tem sido muito importante, transcendendo o viés comercial. A principal responsável por eu estar escrevendo para a OK Mag sentado em um café em Donetsk na Ucrânia é Maria Baró. Através dela meu trabalho foi visto por Luba Michailova que me convidou para essa residência artística de quase dois meses que estou realizando na Instituição Izolyatsia – Platform for Cultural Initiatives. Aqui, sem dúvida o material que está sendo mais esculpido sou eu mesmo. Esse tempo de reflexão e autoconhecimento que me foi oportunizado não tem preço. Um presente mesmo.
Acredito muito que o trabalho do artista não está somente no âmbito do atelier e da produção. O processo se dá em diversos campos e camadas desse contexto e o aprendizado e amadurecimento é uma resultante das experiências e encontros proporcionados por todos eles.

OK: Quais são seus próximos projetos?

T: Após esse período de dois meses de residência em Donetsk na Ucrânia ainda tenho pela frente nesse primeiro semestre de 2014 uma residência em Amsterdam que foi decorrência de um prêmio que rebi em 2013 na Feira ARTIGO do Alexandre Murucci. O Alexandre estabeleceu uma parceria com as empresas Arttown e Manywhere do português Nuno Ribeiro que trabalha com desenvolvimento de projetos de artistas.
Depois disso, participo da Bienal de Vancouver a convite de Marcello Dantas, integrando o time de artista brasileiros que irão apresentar seus trabalhos nesse evento.
No segundo semestre participo da exposição TOHU-WA-BOHU idealizada pelo coletivo Ío (Laura Cattani e Munir Klamt) na galeria Bolsa de Arte de Marga Pasquali em Porto Alegre. Depois vem pela frente o projeto Linde que é um desdobramento da experiência de residência que tive em 2013 no EAC (Espacio de Arte Contemporáneo) em Montevidéu em conjunto com todos os artistas que fizeram parte da edição Sala Taller III e mais artistas convidados.
Pra finalizar o ano, no final do mês de outubro, acontece a exposição decorrente do Prêmio Energisa de Artes Visuais em João Pessoa, onde participo junto com os artistas Carlos Melo e Rafael Pagatini.

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OK: Conte um pouco sobre como surgiu o Atelier Subterrânea

T: Inicialmente a Subterrânea surgiu do desejo de 3 artistas terem um espaço de trabalho mais generoso. Foi quando eu, Gabriel Netto e Jorge Soledar descemos pela primeira vez a escada do subsolo do número 745 da Av. Independência em Porto Alegre. Desde o início percebemos as possibilidades que o espaço poderia oferecer. De forma muito espontânea e progressiva o lugar foi perdendo as características de atelier e ganhando contornos de plataforma independente para iniciativas no campo da arte. Além de suas próprias carreiras, os artistas passaram a gerir e administrar também a história que ali se construía. A subterrânea é uma grande escola para todos nós. De lá pra cá muitos amigos e artistas bacanas passaram pelo lugar. Já faz alguns anos que o time Subterrâneo não sofre alterações. O espaço é gerido por Lilian Maus, Gabriel Netto, Guilherme Dable, James Zortea e esse que vos escreve. Contamos também com a ajuda vital de Isabel Waquil que é nossa assistente e anja da guarda. Sem ela o espaço não seria o mesmo!

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